Amar Demais... Um Erro!

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Relacionamentos Maduros



Sua amiga telefona avisando que, depois de uma longa estiagem, voltou a chover na sua horta: está namorando. Quem? quem?, você pergunta curiosa. Descobre que ele se chama Matheus, um cara sensacional que não sente um pingo de ciúmes dela, que a incentiva a sair sozinha com as amigas e que acredita que a independência é o elixir da felicidade. Enfim, um relacionamento maduro. Você então deseja que eles sejam felizes, que amem-se muito, que sigam preservando sua individualidade e que a relação progrida dentro desse clima de respeito e confiança.
Ao desligar, se sente a mais infantil das criaturas. Momentos antes de falar com sua amiga, você estava à beira de um ataque de nervos porque seu namorado disse que não iria passar na sua casa, estava exausto. O que isto significa? Num relacionamento maduro, significa que ele está mesmo exausto e que os dois podem muito bem ficar sem se verem uma noite. Mas para ela, é a prova de que ele não a ama mais, que está desinteressado, ou armando alguma. Você é assim: sofre por ficar cinco minutos longe de quem gosta. Você não está preparada para um relacionamento maduro......Em relacionamentos maduros, cada um reivindica o seu espaço. Em relacionamentos maduros, o esquecimento de uma data importante não é motivo para briga, elogiar a beldade que entrou no restaurante é uma coisa natural e conviver com ex-namorados é civilizado. Em relacionamentos maduros, ninguém inspeciona colarinhos, fiscaliza a agenda alheia ou fica ouvindo conversas na extensão. No planeta dos maduros não se atiram vasos contra a parede.
Imagine se soubessem que você entra em surto cada vez que seu namorado cumprimenta uma fulana da época do primário, que não descansa enquanto ele não diz onde esteve e com quem, que se sente incomodada até quando ele tira uma prima pra dançar. O que pensariam se soubessem que você desconfia quando liga para o escritório e ele não está, que você costuma dar uma geral no porta-luvas do carro em busca das provas de uma suposta traição e que bisbilhoteia o canhoto do talão de cheques dele? Que diriam se soubessem que você adora que ele proíba seus decotes e que já o procurou no Instituto Médico Legal por causa de um atraso de 25 minutos? Relacionamentos maduros. Podem não ser animados, mas dão muito menos trabalho".

(Martha Medeiros)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Pra Sempre



Todo dia é a mesma coisa. Chego em casa, tomo banho, coloco meu pijama quentinho, me enfio embaixo do edredom e abraço nossa cachorrinha. O frio não passa, ligo a estufa, penso no que fiz durante o dia, converso com os meus botões e me concentro onde quero chegar. É que a gente sempre quer chegar em algum lugar. E eu quero ir longe, sabe? Acho que no fundo eu sempre quis coisas maiores do que eu. E não é essa a grande graça da vida?
Não me importo se o caminho é difícil, eu quero realizar todos os meus sonhos. Quero o que é meu, o que é nosso. E sabe o mais bonito de tudo? É a gente poder sonhar junto. Cada um com suas vontades e a vontade que é só nossa. Isso é bonito, isso é saudável, isso é essencial em uma relação bonita e cheia de vida.
Eu gosto da nossa rotina, das nossas piadas, dos nossos silêncios, das nossas reticências, das nossas risadas. E gosto, também, das nossas brigas. A gente aprende com elas. Eu descubro mais sobre você e conheço outras partes minhas. Aquelas partes que a gente não mostra por vergonha. Reconheço o som do meu grito, vejo minha cara de raiva e meu olhar que assusta quando algo incomoda. E te percebo por inteiro. Seu tom, sua reação, sua ação. Suas verdades, nossas mentiras. E assim a gente vive junto, passando por obstáculos, derrubando o que vem pela frente. E assim vamos ficando mais amigos, mais amantes, mais enrolados um com o outro.
bom me enrolar com você. Não falo apenas do meu pé que roça no seu pé depois que a gente se deita. Falo de sentir o calor, de olhar para você enquanto dorme, de ver seu sorriso de canto de boca quando eu passo a mão pelo seu rosto quando você está de olhos fechados. E meus dedos fazem aquele barulhinho bom quando roçam na sua barba. E a gente fica assim, colado, grudado embaixo das cobertas esperando o dia amanhecer e a vida continuar. Eu sei, sei que a vida continua enquanto a gente dorme um sono profundo e sonha com o que virá. Mas pra mim as coisas param cada vez que te olho. E eu sei que por mais que o tempo passe vai ser assim. Porque é amor o que eu sinto e sempre vou sentir por você, meu bem.
Clarissa Corrêa - http://www.clarissacorrea.com


quinta-feira, 12 de julho de 2012

O outro lado do egoismo


Certas coisas me deixam triste. E louca. Como pode a gente gostar de uma pessoa, ver que ela está chateada e ficar de braços cruzados? Como pode você perceber que o outro está te tratando diferente e ficar indiferente? Como pode a gente só olhar para o próprio umbigo e para as necessidades pessoais? Como pode a gente só pedir apoio, calma, paciência e compreensão e não dar nada em troca? Como pode a gente não se dar por inteiro, mas esperar que a outra pessoa esteja inteira? Hoje em dia é muito fácil querer, exigir, fazer questão que o outro nos enxergue. Difícil mesmo é se colocar no lugar do outro, tentar se ver de longe e analisar onde está o nosso erro. 
É muito fácil pedir, pedir, pedir. Difícil é se doar. Porque normalmente as pessoas têm a triste mania de jogar na cara. Fiz tal coisa por você. E eu por você. Daí vira aquela agressão gratuita, aquela lavagem de roupa suja, aquela coisa feia e antipática que não combina com sentimento. Mas então eu me pergunto: será que tudo combina com sentimento? Claro que não. A gente não consegue ser bom o tempo inteiro. A gente não consegue deixar de lado as mágoas e seguir em frente. Tem coisa que alfineta, cutuca, aperta. E é preciso gritar, tirar, sair desse círculo vicioso e ruim.
Não é fácil. Mas também não é tão complicado assim. Basta querer. Basta sair daquele pedestal. Basta realmente se importar com o que faz. A gente pensa que é muito bacana e que faz o melhor que pode. Que bobagem. Nem sempre lutamos com força e com fé. Às vezes, a gente só deixa a vida nos levar, como se fosse um rio que leva pedaços de árvores e lixo. 
O ser humano é egoísta demais. Se preocupa com a própria vida e finge que se importa com os outros. Então eu questiono: será que eu me importo? Será que você se importa? Até onde você é capaz de ir? Que sacrifícios você é capaz de fazer? Você consegue, por algum momento, deixar de lado sua vida para se preocupar com a do outro? Pequenas doses de egoísmo são bem-vindas e essenciais para a sobrevivência. Mas não dá pra se embriagar: tudo que é demais faz mal.

Clarissa Corrêa - http://www.clarissacorrea.com

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O amor chega em uma hora


Daqui a uma hora ele chega. Não deu tempo de consertar o esfolado da minha unha e de esfoliar decentemente os pêlos encravados. Esfolado, esfoliado. Tudo parece música e rima mas é só porque você chega em uma hora. Tem um carro que passa lá longe, enquanto eu tento abrir os olhos e encarar esse dia em que você chega. Esse carro não sabe, mas foram mil anos abrindo os olhos e ouvindo carros e ouvindo ruas e não ouvindo a sua voz. E agora a sua voz existe e você chega em uma hora. Não estou pronta. Minha barriga dói. Eu tenho vontade de vomitar. Eu não consigo comer de tanto medo que eu estou sentindo. Eu quase desmaiei agora de manhã, porque pra piorar está calor. Não lido bem com calor. Não lido bem com nada que não seja eu em minha bolha arejada de imaginações. Mentira, não lido bem com minha bolha arejada de imaginações também. Não lido bem com nada. Não deu tempo de virar mulher. A hora que ele aparecer no desembarque do aeroporto, com sua cara de homem, com sua voz de homem, eu vou ter vontade de pedir que ele volte de onde veio e espere mais cem anos. Porque não deu tempo de eu virar mulher. Eu vou ter vontade de pedir que ele me carregue no colo até a casa da minha mãe e me entregue pra ela. Eu queria tomar sopa na casa da minha mãe. Eu lembrei agora que minha mãe me dava Sustagem quando eu ficava assim, tão assustadoramente encantada pelo mistério das coisas. E ela temia que eu desintegrasse. E agora? Como faz quando se é adulta? Qual é a sustagem de agora para que eu não desintegre? Como é que se ama com um corpo de trinta e três anos se por dentro eu tenho cinco anos e estou tremendo, apavorada, pressentindo o estrago que as coisas de verdade podem causar. Por que eu chamo de estrago quando sei que, na verdade, estrago é o que as coisas que não são de verdade causam. Eu tenho tamanho pra suportar o tamanho das coisas de verdade?
O amor chega em uma hora e eu ainda não consegui comer, escolher a roupa, arrumar minha franja, decidir se já posso amar. O amor chega em uma hora e vai quebrar meu gesso mas eu não decidi se os ossos já estão bons o suficiente. Mas ele vai chegar com trinta martelos e eu vou estar esperando, forte e decidida, pra receber a porrada. E o ar que vai entrar. E mais dor. E o ar que vai entrar. E quem sabe então alguma felicidade, já que fui corajosa. Quem sabe a felicidade seja a harmonia entre a dor e o ar que entram pelos poros que temos coragem de abrir? E quem sabe só o amor seja o martelo possível?
Escrevo isso e choro. Porque quero tanto e não quero tanto. Porque se acabar morro. Porque se não acabar morro. Porque sempre levo um susto quando te vejo e me pergunto como é que fiquei todos esses anos sem te ver. Porque você me entedia e dai eu desvio o rosto um segundo e já não aguento de saudade. E descubro que não é tédio mas sim cansaço porque amar é uma maratona no sol e sem água. E ainda assim, é a única sombra e água fresca que existe. Mas e se no primeiro passo eu me quebrar inteira? E se eu forçar e acabar pra sempre sem conseguir andar de novo? Eu tenho medo que você seja um caminhão de luz que me esmague e me cegue na frente de todo mundo. Eu tenho medo de ser um saquinho frágil de bolinhas de gude e de você me abrir. E minhas bolhinhas correrem cada uma para um canto do mundo. E entrarem pelas valetas do universo. E eu nunca mais conseguir me juntar do jeito que sou agora. Eu tenho medo de você abrir o espartilho superficial que aperto todos os dias para me manter ereta, firme e irônica. Minha angústia particular que me faz parecer segura. Eu tenho medo de você melhorar minha vida de um jeito que eu nunca mais possa me ajeitar, confortável, em minhas reclamações. Eu tenho medo da minha cabeça rolar, dos meus braços se desprenderem, do meu estômago sair pelos olhos. Eu tenho medo de deixar de ser filha, de deixar de ser amiga, de deixar de ser menina, de deixar de ser estranha, de deixar de ser sozinha, de deixar de ser triste, de deixar de ser cínica. Eu tenho muito medo de deixar de ser.
Agora é menos de uma hora. Você vai chegar e automaticamente minha agenda de milhares de regras e horários e controles vai desaparecer. E eu vou ficar apavorada porque só o que eu tenho é o contorno mentiroso que eu dou para os meus dias. E você, porque me abraça e me dá outro desenho, é o vilão da minha vida programada. Você é o tufão de oxigênio que invade meu nariz mas, porque estou com tanto medo, mais parece falta de ar. Agora é menos de menos de uma hora. Preciso terminar esse texto. Mas eu tenho medo, sobretudo, de terminar esse texto. Sobre o que eu vou escrever se você for melhor do que esperar por você?

Tati Bernardi

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Relacionamentos



Sempre acho que namoro, casamento, romance tem começo, meio e fim. Como tudo na vida.
Detesto quando escuto aquela conversa:
- 'Ah,terminei o namoro...
- 'Nossa,quanto tempo?'
... - 'Cinco anos... Mas não deu certo...acabou'
- É não deu...?
Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou.
E o bom da vida é que você pode ter vários amores.
Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?
E não temos esta coisa completa.
Às vezes ele é fiel, mas não é bom de cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é malhada, mas não é sensível.
Tudo nós não temos.
Perceba qual o aspecto que é mais importante e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro.
Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico; que é uma delícia.
E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante...e se o beijo bate... se joga... se não bate...mais um Martini, por favor... e vá dar uma volta.
Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra.
O outro tem o direito de não te querer.
Não lute, não ligue, não dê pití.
Se a pessoa tá com dúvida, problema dela, cabe a você esperar ou não.
Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos mas se a pessoa REALMENTE gostar,   ela volta.
Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob chantagem, gravidez, dinheiro, recessão de família?
O legal é alguém que está com você por você.
E vice versa.
Não fique com alguém por dó também.
Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?
Gostar dói.
Você muitas vezes vai ter raiva, ciúmes, ódio, frustração. Faz parte.
Você namora um outro ser, um outro mundo e um outro universo
E nem sempre as coisas saem como você quer...
A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.
Se alguém vier com este papo, corra, afinal, você não é terapeuta.
Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.
Na vida e no amor, não temos garantias.
E nem todo sexo bom é para namorar
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar.
Nem todo beijo é para romancear.
Nem todo sexo bom é para descartar. Ou se apaixonar. Ou se culpar.
Enfim...quem disse que ser adulto é fácil?


(Por Arnaldo Jabor)

terça-feira, 3 de abril de 2012

O que é o amor?



Amor é um destino feliz ao fim de um caminho difícil por uma estrada sem atalhos. Amor é quando a
esperança tem paciência. Amor é colecionar detalhes. Amor é quando a gente sonha acordado e só sabe que é verdade porque tem alguém ao lado sonhando o mesmo sonho que você. Amor é querer pertencer ao outro, não por submissão ou posse, mas por entrega. Amor é a cada dia que passa estar sempre mais perto do início do que do fim. Amor é quando a solidão tem vontade de ser você. Amor é tentar concentrar ao assistir um filme, mesmo sabendo que ao seu lado está a pessoa mais linda do mundo. Amor é encontrar alguém que reúna os seus defeitos preferidos. Amor é nunca mais tirar a barba só porque ele um dia disse que gostava. Amor é procurar roupas parecidas com aquela que ele elogiou. Amor é aprender não só a fazer, mas a querer fazer. Amor é ter sempre alguém na mente enquanto o corpo se esforça para fazer outras coisas. Amor é convencer o outro a fazer o que será melhor para ele, nunca o que será melhor para você. Amor é não desistir. Amor é nunca se despedir, e isso não é não ter fim. Amor é quando a ausência não se faz presente, pois de algum modo se está sempre ali. Amor é ter orgasmos não só no sexo. Amor é quando ao deixar alguém você sente que deixou a você mesmo. Amor é perceber que a sua felicidade é importante para o outro. Amor é quando é simples de sentir, complicado de explicar e trabalhoso para se manter. Amor é quando o seu espírito descobre um abrigo e não é o seu corpo. Amor é não se contentar com pouco sem exigir mais do que o outro pode dar. Amor é sentir a necessidade de ser sempre sincero. Amor é quando dói mentir. Amor é o infinito onde as paralelas do sentimento e do relacionamento deveriam, mas nem sempre se encontram. Amor é o que se leva uma vida para acontecer e muitas outras para se esquecer. Amor é um estado raro em que em alguns casos a felicidade supera a reciprocidade. E chega o tempo em que finalmente se aceita que o verdadeiro amor não é aquele que necessariamente se concretizou de verdade; o amor da sua vida não é aquele que fica a vida toda por toda a sua vida; o amor que importa em sua existência é o que você sente por aquela só pessoa, por tanto tempo, anos e dias sem jamais pensar que desperdiçou um segundo sequer de sua vida. Amor é escolher sentir saudade. Amor é, por fim, o que só você entende.


(Ruleandson do Carmo - http://www.eusoqueriaumcafe.com)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Kit Felicidade


Por muito tempo acreditei que a fórmula da felicidade estava no triangulo amor-saúde-dinheiro. Acredito, ainda, que ter o coração preenchido, o corpo funcionando 100% e um saldo decente no banco alivia à beça as dores do mundo. Se você não está só, não está doente e não está duro, vai se angustiar por quê?
Você não está só, não está doente e não está duro, porém jamais conseguiu ir ao cinema sozinho, ou viajar sozinho, ou dar uma caminhada sozinho. Você não consegue escolher entre um casaco preto e um marrom sem consultar uma segunda opinião. Você nunca aceitou um emprego sem antes saber o que a sua turma pensava a respeito, nunca tomou uma decisão que fosse desaconselhada pelos parentes, nunca abriu um champanhe para si mesmo.
Você não está só, não está doente e não está duro, mas não acredita que tenha condições de realizar um trabalho que nunca fez antes. Tem certeza de que é a pessoa mais deslocada da festa e que está vestido inadequadamente. Não dá palpite na conversa dos outros porque sabe que vai dizer besteira. Ri das piadas que não entende para parecer inteligente, mesmo que a piada não tenha sentido algum. É ph.D em Literatura, mas não ousa mostrar seus versos. Tem o corpo malhado mas anda encurvado na rua. Bate com o joelho na quina da mesa e, em vez de soltar um palavrão, pede desculpas para o móvel.
Você não está só, não está doente e não está duro, mas leva a ferro e fogo tudo o que lhe dizem. Se alguém comenta que seu cabelo está mais grisalho, você rebate dizendo que a barriga do outro está mais saliente. Se errou o caminho na estrada, pragueja em vez de aproveitar a bela paisagem que se descortinou. Se alguém desmarca um compromisso em cima da hora, você corta relações. Se algo sai errado, a culpa nunca é sua. Se exagera numa reação, é incapaz de rir de si próprio e relevar o incidente. Um congestionamento estraga o seu dia.
Amor, saúde e dinheiro persistem como a tríade dos sonhos, mas o século 21 está colocando na prateleira um kit suplementar: independência, auto-estima e bom humor. Adquira-o. A felicidade não depende só do cumprimento de metas vitais, mas também de atitudes mundanas. 
(Martha Medeiros)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Crônica : Quando amar se torna obsessão


Meu café da manhã, um cigarro, nada mais poderia me acalmar. Apesar de já ter parado de fumar a algum tempo eu não tive outra escolha.
Olhando para o celular de dez em dez segundos para ver se ele deu sinal de vida, e nada... Eu não conseguia comer, já quase não conseguia mais respirar. Como se depende se de um suspiro dele pra continuar minha vida. Eu precisava fazer ainda tantas coisas nesse dia. Mas só conseguia ficar estática esperando...
Eu só precisava de uma ligação, até mesmo uma mensagem de texto serviria para acalmar meu desespero. O cigarro não resolveu muito o meu estado emocional, então fui fazer uma faxina no meu quarto, espanei, limpei, mudei os móveis de lugar, queria mesmo era fazer uma faxina dentro de mim. Entre uma música e outra começava a chorar, já que estava sozinha em casa, era mais fácil colocar pra fora essa angustia, que já tinha corroído minha alma.
Vinte e quatro horas já haviam se passado desde a última ligação, a desculpa era que o celular descarregou o final de semana todo e miraculosamente ligou no domingo de manhã... Deu pra falar alguns minutos e caiu a ligação para o meu desespero.
Vinte e quatro horas se passaram e eu precisava um pouco mais da minha droga, estava em abstinência. Enlouquecida eu já havia rastreado todos os seus perfis em rede social na internet e não tinha ocorrido nenhuma mudança.
Resolvi então ligar de novo, já não agüentava mais, ao invés da secretária eletrônica eu ouvi as chamadas com o coração na mão e ele não me atendeu. Entrei em estado de pânico, pensei eu prefiro morrer do que passar por tudo isso de novo. Mais uma vez? Como isso foi possível? Como pude ser tão tola e me permitir passar por essa obsessão novamente. A última relação não serviu de exemplo?
Definitivamente eu não sei amar, pronto e agora vou viver sozinha eternamente? Estava tudo tão bom, eu quero a minha paz de volta, não agüento mais ficar olhando pro meu celular ou checando tudo onde ele poderia está,  seus passos, imaginando o que ele está pensando.
Liguei de novo umas duas horas depois, ele me atendeu, agora eu estava feliz. Mas ele estava no trabalho não me deu muita atenção. Mas eu consegui alimentar um pouco do meu vicio, eu podia continuar e seguir em frente por mais algumas horas... Mas até quando? 

Andreza Cavalera

quinta-feira, 15 de março de 2012

Crônica : O Contrário Do Amor

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.
O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma
maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: você não consta mais do cadastro.
Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.
Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bungjump, ir para o colégio de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência.
Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.
Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde,
quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.
(Martha Medeiros)

terça-feira, 6 de março de 2012

A necessidade de desejar



Todos sentem necessidade de amar, e esta necessidade geralmente é satisfeita quando encontramos o objeto do nosso amor e com ele mantemos uma relação freqüente e feliz.

Pois bem. Enquanto vamos juntinhos à feira escolher frutas e verduras, enquanto mandamos consertar a infiltração do banheiro e enquanto vemos televisão sentados lado a lado no sofá, o que fazemos com nossa necessidade de desejar?

Lendo Alain de Botton, um escritor suíço que já foi mencionado nesta coluna, deparei-me com essa questão: amor e desejo podem ser conciliáveis no início de uma relação, mas despedem-se ao longo do convívio. Só por um milagre você vai ouvir seu coração batendo acelerado ao ver seu marido chegando do trabalho, depois de vê-lo fazendo a mesma coisa há dez, quinze, vinte anos. Ao ouvir a voz dela no telefone, você também não sentirá nenhum friozinho na barriga, ainda mais se o que ela tem para dizer é "não chegue tarde hoje que vamos jantar na mamãe". Você ama o seu namorado, você ama a sua mulher. Mais que isso: você os tem. Mas a gente só deseja aquilo que não tem.

O problema da infidelidade passa por aqui. Muitos acreditam que a pessoa que foi infiel não ama mais seu parceiro: não é verdade. Ama e tem atração física, inclusive, mas não consegue mais desejá-lo, porque já o tem. Fica então aquele vácuo, aquela lacuna, aquela maldita vontade de novamente desejar alguém e ser desejado, o que só é possível entre pessoas que ainda não se conquistaram.

Não é preciso arranjar um amante para resolver o problema. Há recursos outros: flertes virtuais, fantasias eróticas, paqueras inconseqüentes.

Tem muita gente disposta a entrar nesse jogo sem se envolver, sem colocar em risco o amor conquistado, porque sabe que a troca não compensa. Amor é jóia rara, o resto é diversão. Mas uma diversão que precisa ter seu espaço, até para salvar o amor do cansaço.

Necessidade de amar x necessidade de desejar. Os românticos recusam-se a reconhecer as diferenças entre uma e outra. Os galinhas agarram-se a essa justificativa. E os moderados tratam de administrar essa arapuca.
(Martha Medeiros)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Crônica : Triz



Eu quase consegui abraçar alguém semana passada. Por um milésimo de segundo eu fechei os olhos e senti meu peito esvaziado de você. Foi realmente quase. Acho que estou andando pra frente. Ontem ri tanto no jantar, tanto que quase fui feliz de novo. Ouvi uma história muito engraçada sobre uma diretora de criação maluca que fez os funcionários irem trabalhar de pijama. Mas aí lembrei, no meio da minha gargalhada, como eu queria contar essa história para você. E fiquei triste de novo.
Hoje uma pessoa disse que está apaixonada por mim. Quem diria? Alguém gosta de mim. E o mais louco de tudo nem é isso. O mais louco de tudo é que eu também acho que gosto dele. Quase consigo me animar com essa história, mas me animar ou gostar de alguém me lembra você. E fico triste novamente.
Eu achei que quando passasse o tempo, eu achei que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, eu achei que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.
Chorar deixou de ser uma necessidade e virou apenas uma iminência. Sofrer deixou de ser algo maior do que eu e passou a ser um pontinho ali, no mesmo lugar, incomodando a cada segundo, me lembrando o tempo todo que aquele pontinho é um resto, um quase não pontinho. Você, que já foi tudo e mais um pouco, é agora um quase. Um quase que não me deixa ser inteira em nada, plena em nada, tranqüila em nada, feliz em nada.
Todos os dias eu quase te ligo, eu quase consigo ser leve e te dizer: “Ei, não quer conhecer minha casa nova?” Eu quase consigo te tratar como nada. Mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. Mas não vira nada nunca.
Eu quase consegui te amar exatamente como você era, quase. E é justamente por eu nunca ter sido inteira pra você que meu fim de amor também não consegue ser inteiro.
Eu quase não te amo mais, eu quase não te odeio, eu quase não odeio aquela foto com aquelas garotas, eu quase não morro com a sua presença, eu quase não escrevo esse texto.
O problema é que todo o resto de mim que sobra, tirando o que quase sou, não sei quem é.

Tati Bernardi




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Crônica : Hoje eu chorei com o caminhão de gás



A primeira coisa que eu vi quando abri os olhos foi a minha cachorrinha me espiando triste do corredor, eram quatro da manhã e eu já sabia que não iria dormir mais. Meu sono é interrompido de duas em duas horas por um pânico horrível que paralisa meus órgãos e só deixa viva a bile que toma todo o meu corpo e me faz querer vomitar até virar do avesso. Eu arregalo os olhos para o teto, fecho minhas mãos com uma força que quase faz com que minhas unhas cortem minhas palmas e deixo a onda da dor vir, ela me sacode inteira, me joga numa profundidade sem som e me afoga por completo. Abro as janelas porque preciso de ar, mas nunca tem ar para meu pulmão afogado. Coloco o santinho que meu avô me deu no peito e peço a ele: você já morreu por amor, não deixe acontecer o mesmo comigo. Amar dói tanto que você volta a lembrar que existe algo maior, você se lembra de Deus, você se lembra de vida após a morte. Amar dói tanto que você fica humilde e olha de verdade para o mundo, mas ao mesmo tempo fica gigante e sente a dor da humanidade inteira. Amar dói tanto que não dói mais, como toda dor que de tão insuportável produz anestesia própria. Você apela pra todo e qualquer santo, pra cartomante, pra ex-namorado, pra tarólogo, astrólogo, psicólogo, numerólogo, amigo e apela até pra inimigo. Qualquer um, pelo amor de Deus, tire essa dor de mim. Não adianta, não vou dormir mais. Mas vou fazer o que então? Minha cama me lembra você, minha cachorra me lembra você, beber água me lembra você, viver me lembra você. Vou me levantar agora e ir para onde? Tomar banho? Tomar café? Não tenho nenhuma vontade de existência, seja de vaidade ou gula. Só quero ficar deitada, mas ficar deitada também dói. O mundo não tem posição confortável pra mim, aonde vou, essa merda de dor horrível vai junto. Chorar não adianta, eu seco de tanto chorar e não passa. Ver TV, falar ao telefone, dançar, gritar, escrever, abraçar minha mãe, tomar suco de manga… nada adianta. Eu sei, eu sei, o eterno clichê “isso passa”. Passa sim e, quando passar, algo muito mais triste vai acontecer: eu não vou mais te amar. É triste saber que um dia vou ver você passar e não sentir cada milímetro do meu corpo arder e enjoar. É triste saber que um dia vou ouvir sua voz ou olhar seu rosto e o resto do mundo não vai desaparecer. O fim do amor é ainda mais triste do que o nosso fim. Meu amor está cansado, surrado, ele quer me deixar para renascer depois, lindo e puro, em outro canto, mas eu não quero outro canto, eu quero insistir no nosso canto. Eu me agarro à beiradinha do meu amor, eu imploro pra que ele fique, ainda que doa mais do que cabe em mim, eu imploro pra que pelo menos esse amor que eu sinto por você não me deixe, pelo menos ele, ainda que insuportável, não desista. Minha cachorra pede um biscoitinho, aí eu choro porque eu lembro que você adorava dar biscoitinho para ela. Está sol, e eu choro porque você ficava feliz com o sol e você feliz era tão perfeito que eu tinha medo. Aí eu vou escovar meus dentes e choro porque você tirava sarro da minha escova elétrica, depois eu faço xixi e choro porque a gente tinha liberado o xixi de portas abertas. Eu abro o guarda-roupas e choro porque eu não quero ficar bonita, eu não quero dar a volta por cima, eu não quero ficar bem pra você ver que eu estou bem e quem sabe ter saudades. Choro porque acho ridículo os jogos da vida, qualquer coisa é ridícula perto desse amor que é tão simples e óbvio. Quando finalmente eu consigo me arrumar em meio a esse rio de lágrimas, eu choro porque o caminhão do gás passou e aquela musiquinha idiota, mais algumas crianças berrando na quadra lá embaixo e mais dois passarinhos cantando na minha janela, me lembram que a rotina, a alegria e a pureza ainda existem, apesar de você não estar mais aqui. Nada, nada aconteceu para o mundo. E eu me sinto minúscula e sozinha por não ter a cumplicidade da vida lá fora, por não ter um minuto de silêncio pela nossa morte, por ter que sentir tudo isso sozinha, entre escovas de dentes, xixis e roupas dobradas e cheirosas. Odeio a ordem de tudo, odeio a funcionalidade de tudo, odeio que a TV ligue, que o telefone toque, que meu estômago peça comida, que japonesas riam fora de hora, que meu carro corra, que a bola quique duas vezes antes e, principalmente, que você, não muito longe daqui, sorria. Dirijo até meu trabalho sem nada dentro de mim a não ser um monstro parasita que se alimenta do meu desespero, nenhum farelo de comida. Meu lado da frente está quase colando ao de trás, talvez na falta de você eu precise mesmo me juntar mais a mim mesma. Minha mesa está lá, meu lixo está lá, minha cadeira, a menina grande que fala igual a um homem, a gordinha solícita que não pára de me olhar até que eu olhe para ela, sorria e diga bom dia. Está tudo lá, mas você, mais uma vez, não está aqui. Vou para o banheiro e choro, que novidade? Mas dessa vez porque me olho no espelho, e isso também me lembra você. Eu era sua, a sua menina, a sua criança, a sua mulher, a sua escritora predileta, a sua parceira de dar risada de programas estúpidos que passam de madrugada na TV, a sua namorada sensível que tinha medo de vomitar e de amar demais, assim como você. A sua melhor amiga pra sentar num banco de praça e falar mal de todo mundo, pra perder um trem na Itália e ainda por cima sentar num chiclete fresco ou pra cuidar do nosso porquinho de pelúcia. Eu era a mulher que encaixava a cabeça nas suas costas e sabia que tinha nascido a partir de você, eu era a mulher que esperava sofridamente você voltar mas nunca deixou de te amar mesmo quando você ia. Todo mundo me fala que eu preciso ser minha, inclusive pra ser sua, mas eu não deixo de olhar para o espelho e ver uma metade de gente, uma metade de sonho, de sexo, de alegria e de futuro. Que se foda a auto-ajuda, que se fodam os livros com homens carecas, que se foda o terceiro olho (do cu?) e que se foda a psicologia: eu sou mesmo metade sem você e que se foda! Se antes de você aparecer eu já te amava, eu já te esperava, eu já sabia que você existia, como eu posso não te amar agora que você tem forma, sorriso, coração e nome?


Por: Tati Bernardi

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Relacionamentos maduros



Sua amiga telefona avisando que, depois de uma longa estiagem, voltou a chover na sua horta: está namorando. Quem? Quem, você pergunta curiosa.
Descobre que ele se chama Mateus, um cara sensacional que não sente um pingo de ciúmes dela, que a incentiva a sair sozinha com as amigas e que acredita que a independência é o elixir da felicidade. Enfim, um relacionamento maduro.
Você então deseja que eles sejam felizes, que amem-se muito, que sigam preservando sua individualidade e que a relação progrida dentro desse clima de respeito e confiança. Ao desligar, se sente a mais infantil das criaturas.
Momentos antes de falar com sua amiga, você estava à beira de um ataque de nervos porque seu namorado disse que não iria passar na sua casa, estava exausto. O que isto significa? Num relacionamento maduro, significa que ele está mesmo exausto e que os dois podem muito bem ficar sem se verem uma noite. Mas para ela, é a prova de que ele não a ama  mais, que está desinteressado, ou armando alguma. Você é assim: sofre por ficar cinco minutos longe de quem gosta. Você não está preparada para um relacionamento maduro.
Em relacionamentos maduros, cada um reivindica o seu espaço. Em relacionamentos maduros, o esquecimento de uma data importante não é motivo para briga, elogiar a beldade que entrou no restaurante é uma coisa natural e conviver com ex-namorados é civilizado. Em relacionamentos maduros, ninguém inspeciona colarinhos, fiscaliza a agenda alheia ou fica ouvindo conversas na extensão. No planeta dos maduros não se atiram vasos contra a parede.
Imagine se soubessem que você entra em surto cada vez que seu namorado cumprimenta uma fulana da época do primário, que não descansa enquanto ele não diz onde esteve e com quem, que se sente incomodada até quando ele tira uma prima pra dançar. O que pensariam se soubessem que você desconfia quando liga para o escritório e ele não está, que você costuma dar uma geral no porta-luvas do carro em busca das provas de uma suposta traição e que bisbilhota o canhoto do talão de cheques dele? Que diriam se soubessem que você adora que ele proíba seus decotes e que já o procurou no Instituto Médico Legal por causa de um atraso de 25 minutos?
Relacionamentos maduros. Podem não ser animados, mas dão muito menos trabalho.
(Martha Medeiros)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Crônica : Homens que se aproveitam



Entra geração, sai geração e os pais seguem dando os mesmos conselhos. Mamãe para sua menina: "Filhinha, dê-se o valor. Não saia com qualquer um, esses garotos só querem se aproveitar de você". Papai para seu menino: "Filho, não se amarre tão cedo. Faça muita festa, namore todas, aproveite a vida". Moral da história: toda menina é carniça, todo homem é urubu. Não olhe agora, mas teias de aranha estão formando-se no teto.
Estou pra ver papo mais obsoleto. Mesmo que as mães estejam hoje menos caretas e já não destilem tanto preconceito, ainda assim paira no ar a idéia de que, quando um homem e uma mulher vão para os finalmentes sem haver um compromisso formal, ele está tirando uma lasquinha da pobre infeliz, que está ali sendo iludida, usada, consumida. Tirem as crianças da sala.
O que ninguém contou para o urubu é que a carniça não está morta: ela também tem fome e sacia-se plenamente com essa refeição. Pelo amor de Deus, as mulheres aproveitam também! A única diferença é que esse é o único assunto que a gente não abre para meio mundo: as mulheres é que são as verdadeiras comem-quietas.
Não acredito quando ouço uma garota dizer que fulano se aproveitou dela. Como assim, ela estava desmaiada? Algumas mulheres ainda têm esse vício de achar que uma relação sexual que não evoluiu para o namoro sério ou para o casamento é uma espécie de estelionato: o cara furtou sua ilusão de amor. Essa garota até pode ter caído numa cantada mal-intencionada, mas ainda assim, durante o bem-bom, ela não estava fazendo nenhum sacrifício: trocou carinho, sentiu prazer, ficou satisfeita. Por que só o homem se aproveita? Aliás, por que esse "se", como se o ato sexual fosse praticado por um só? Homens e mulheres apenas "se" aproveitam quando "se" masturbam, amando-se a si próprios. O resto é em proveito dos dois.
Ninguém deve se entregar para uma pessoa em troca de garantias. Uma relação sexual não é um passaporte para o altar, é apenas uma transa, que pode virar duas, três, trezentas, ou pode permanecer filha única.
Nenhuma mulher pode dizer que alguém se aproveitou da sua ingenuidade depois de ela ter consentido tirar a roupa. Se tirou, que aproveite também. Quem acha que o prazer é um direito apenas dos homens precisa voltar para os anos 70 e recuperar as aulas perdidas.
(Martha Medeiros)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Crônica : Baixo-astral: de quem é a culpa?



No café da manhã, suco de laranja com Prozac. No almoço, água mineral com Dermonid. Na janta, uísque e Lexotan. Não é a nova dieta da Adriane Galisteu: é a dieta de quem está com excesso de peso na alma.

O maior mal das pessoas infelizes é não diagnosticar corretamente de onde vem a sua dor. Ninguém acha que tem culpa por as coisas estarem dando errado. É culpa do chefe, do ex, dos pais, dos políticos, do síndico, da tevê, de todos que fazem parte desse mundo do qual você foi expulso. Que tal assumir a responsabilidade sozinho para ver o que acontece?

Estou longe de ser fã do Lair Ribeiro, papa da neurolingüística

brasileira, mas devo reconhecer que a maioria dos nossos problemas foram originados dentro de nós mesmos e só por nós podem ser solucionados. Não se está falando aqui de problemas graves, como a perda de um parente, de um imóvel, de um emprego ou da própria saúde, mas daquelas ingresias do cotidiano que nos tornam incapazes de sorrir.

Você se acha feia. Cada vez que vê uma foto da Ana Paula Arosio agradece a Deus por morar no térreo, pois se fosse no oitavo andar se atirava de ponta. Acha-se gorda, também. Tem um senhor quadril. O melhorzinho em você são os pés, mas ninguém irá olhar para eles enquanto você não reduzir seu nariz pela metade. Espelho, espelho meu, logo eu?

Se ao menos você fosse assombrosamente inteligente, mas você é média. Lê cinco livros por ano e nunca disse nada que merecesse entrar para uma antologia poética. Você queria escrever tão bem quanto o Veríssimo, ser tão espirituosa quanto o Jô e tão bem informada quanto a Marília Gabriela, mas se sente tão insossa quanto a sua diarista.

Nada disso lhe afetaria se você tivesse uma conta bancária recheada, mas você não recebe aumento há três anos. Se ao menos o seu namorado fosse a cara do Brad Pitt, mas ele é a cara do Mr. Bean. Se ao menos você morasse em Nova York, mas seus pais fizeram a gentileza de se mudar para uma

cidade chamada Sertãozinho do Juazeiro, onde ninguém jamais botou os olhos num Big Mac.

Aparentemente, não dá para dizer que sua vida é nitroglicerina pura. Mas só podemos chamar de tragédia aquilo que é irreversível, o que não é o seu caso. Tudo é uma questão de humor e de atitude: mude. Deixe de colocar sua felicidade na mão dos outros. Comece um caso de amor consigo

mesma e pare de se boicotar. A Ana Paula Arosio, o Veríssimo, a Marília Gabriela e o Brad Pitt não têm culpa de você insistir em seguir modelos.

Inaugure sua própria fórmula de ser feliz e patenteie. Você ainda pode ficar rica com os direitos autorais.
(Martha Medeiros)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Crônica : A dor que dói mais



Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade
de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de caju. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido
frango assado, se ela tem assistido às aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

(Martha Medeiros)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Crônica : Amores intraduzíveis


Uma amiga namorou por seis meses um americano, nascido em Santa Bárbara, Califórnia. Lá conheceram-se e por lá ela ficou. Apaixonou-se pelos olhos dele, pelos ombros dele, pelo gosto musical do gringo, que batia 100% com o seu. Passavam tardes inteiras ouvindo John Mellencamp, Elvis Costello e Neneh Cherry, apesar de ela não ter a mínima idéia do que diziam as letras. Seu inglês empacou no the book is on the table e dali nunca saiu. Ele, por sua vez, achava que no Brasil se falava espanhol, idioma que tampouco dominava. Tudo bem. Nenhum dos dois estava mesmo a fim de papo. Beijavam-se adoidado, caminhavam juntos na beira do mar, andavam de bicicleta, tomavam cerveja nos bares e compartilhavam canções.
Foram almas gêmeas por meio ano e tudo o que precisavam era dizer hello quando se encontravam e bye bye quando se despediam. O resto funcionava na base da mímica, do tato e do encanto. Mas não há amor que resista à mudez eterna. Ela resolveu voltar para o Brasil e não se correspondem por
razões óbvias. Falar no telefone, nem pensar. The end.
Eis que minha amiga, ao voltar, conhece um paulista. Português fluente, como o dela. De certo modo, sentiu-se aliviada: ela poderia perguntar a ele o que achou de um filme, poderia conversar sobre as diferenças entre Lula e FHC, poderia deixar recados na sua secretária eletrônica e dizer coisas safadas no seu ouvido. Depois da greve de silêncio nos States, uau, ela soltaria o verbo. Foi então que aconteceu.
Parecia que um era do Zimbábue e o outro da Croácia. Ela não conseguia falar duas frases sem que ele retrucasse. Se ela dizia uma coisa carinhosa, ele achava que era ironia. Se ela falava sério sobre qualquer assunto, ele achava que era deboche. Se ela perguntava algo do passado dele, ele a chamava de invasiva. Se ela brincava com o cabelo dele, ele
se ofendia. Completamente dessintonizados.
Quando era ele quem tentava melhorar o clima, também não funcionava. Se ele concordava com ela, ela achava que ele tinha aprontado alguma. Se ele ria de suas piadas, ela achava que ele não tinha entendido. Se ele pedia o mesmo prato que ela no restaurante, ela dizia que ele não tinha personalidade. Se ele pedia um prato diferente, era porque estava criticando a escolha dela. Amor nenhum resiste ao desentendimento eterno.
Acabou. Não se correspondem por motivos óbvios e falar no telefone, também, nem pensar.
Minha amiga procura novo namorado e espera ter mais sorte na próxima vez. "Brasileiro ou estrangeiro?", pergunto eu. "Pouco importa", me responde ela, "desde que venha com legendas".

Martha Medeiros

sábado, 26 de novembro de 2011

Rir com o cérebro


Abra uma revista feminina e estarão lá todas as dicas para a felicidade eterna: como fazer um casamento durar, como relacionar-se bem com seu chefe, como manter uma amizade, etc, etc. Quem leu uma reportagem leu todas: elas são unanimes em dizer que é fácil descomplicar a vida. Será?
Existe, sim, uma maneira de dar alívio imediato para as agruras da nossa sacrossanta rotina. Anote aí a palavra mágica: humor.
Nada de novo no front. A maioria das pessoas sabe que o humor é o melhor paliativo para o caos emocional em que vivemos. Só que não funciona para todos: um grande contador de piadas não é, necessariamente, feliz. Humor nada tem a ver com palhaçada. Não é preciso mostrar todos os dentes.
Humor é uma maneira de enxergar o mundo. E o olhar irônico, crítico e, por vezes, benevolente de quem sabe que nada deve ser levado demasiadamente a sério.
Quantas vezes você viu Woody Allen gargalhar? E Paulo Francis, Millôr,Verissimo? Ri melhor quem ri com o cérebro. Muita gente se queixou dos comentários de Arnaldo Jabor na entrega do Oscar. A troco? Por que ele deveria reverenciar um glamour que acha careta, por que deveria calar diante da magnificência da festa? Billy Cristal zombou de tudo e de todos, mas dentro do script. Jabor fez apenas o papel de Jabor: ácido,independente e do contra. O mau humor também pode ser engraçado, e vale lembrar que todo humor é transgressor.
O estresse não compensa. Você gastou uma fortuna num vestido e, quando vai estreá-lo, dá de cara com um par de vaso. Seu marido disse que ia chegar às oito, mas chegou às dez. Sua mãe disse que iria buscar os ingressos do teatro, mas esqueceu. O hóspede que iria ficar só dois dias já está dando ordens para a empregada. Você é entrevistado por alguém que lhe chama o tempo inteiro de Fernanda, e você é Sílvia desde criancinha. O cachorro da sua amiga apaixonou-se perdidamente por sua perna. O pão acabou justo na hora do café. Sua meia-calça desfiou. Seu voo atrasou. Seu cheque voltou. Ou você passa a ter mania de perseguição ou releva. Depende você sabe do quê Se você ainda não está totalmente convencida, pense em como faz falta o humor na vida de Itamar Franco e como sobra na de Rubinho Barrichello.
Repare como aqueles que relativizam as derrotas têm menos rugas. Pense que, enquanto você controla horário de marido, arruma briga com o zelador e excomunga meio mundo porque sua unha quebrou, tem gente cuja filha foi metralhada na porta do colégio ou cujo pai dorme na rua em busca de uma senha para conseguir atendimento médico. Assovie.
O que as revistas femininas deveriam receitar é: não acredite em tudo o que ouve. Nem em tudo o que diz. Suspenda a descrença quando quiser prazer. Não subestime os outros, nem os idolatre demais. Seja educada, mas não certinha. Faça coisas que nunca imaginou antes. Não minta, nem conte toda a verdade. Dance sozinha quando ninguém estiver olhando.
Divirta-se enquanto seu lobo não vem.
(Martha Medeiros)

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